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Django Livre (Django Unchained) | Um novo ponto de vista

No meio da semana passada o LulaPro assistiu a uma cabine (que é como se chama a apresentação de um filme para a imprensa) de Django Livre (Django Unchained) e escreveu sobre o filme.

Neste final de semana foi a minha vez, então lá vai outra opinião.

Django Livre Django Unchained critica omedi

A história é a seguinte: Dr. King Shultz é um caçador de recompensas que precisa da ajuda de um escravo, Django, para encontrar três criminosos. Depois de ajudar o Dr. Schultz o escravo Django ganha a liberdade e passa a procurar Broomhilda, sua esposa.

Mas, afinal de contas, Django Livre vale à pena?

Com vocês Django Livre, a opinião:

Que Tarantino é fã do chamado western spaghetti (filmes de bang-bang produzidos na Itália, muito populares nas décadas de 60 e 70), todo mundo sabe. E todo mundo também sabe que ele sempre usou referências gritantes do gênero em seus filmes. Digamos que estava demorando para ele fazer seu próprio western (ou bang-bang, como queiram).

Assisti a uma entrevista de Quentin Tarantino em que ele conta que ao escrever o roteiro de Django Unchained teve um problema: prolixidade. Ele escreveu tanto que o roteiro permitiria que ele fizesse uns três filmes, idéia que ele desistiu um tempo depois e passou a fazer cortes para reduzir o tamanho do roteiro.

Ciente disso, fiquei com a impressão de que o corte profundo atrapalhou o resultado final. O ritmo do filme é inconstante, começa absurdamente corrido, com informações jogadas no colo do espectador com a esperança de que ele tire suas próprias conclusões, e isso continua até o ponto em que, de repente, Tarantino puxa o freio de mão e o filme entra em câmera lenta.

Em certo momento eu fiquei com a nítida impressão de que o filme ia acabar ali mas não, tinha mais 40 minutos de sangue jorrando na tela (mais ao estilo gore que ao estilo Peckinpah). Minutos que não foram completamente desnecessários, mas sabe quando você acha de deveria colocar um pouco mais de tempero na comida e depois que coloca percebe que não precisava? Pois é.

Django Livre não é o melhor filme de Tarantino, longe disso. Sou fã do sujeito, mas fiquei com a impressão que foi feito mais pela empolgação de poder fazer um western blaxploitation que pelo talento como diretor. Bastardos Inglórios também não me agradou muito, mas tem personagens e cenas sensacionais, como a da abertura com o Coronel alemão Hans Landa (Christoph Waltz) procurando por judeus em uma fazenda. Não existe nenhuma cena memorável como essa em Django Livre.

Como sempre os personagens são interessantes, mas apenas quatro se destacam: Dr. King Schultz (Christoph Waltz), Django (Jamie Foxx), Calvin Candle (Leonardo DiCaprio) e Stephen (Samuel L. Jackson). Broomhilda (Kerry Washington) poderia ter um espaço maior, mas não faz nada além de ter um olhar perdido e falar alemão. O resto surge e desaparece e você nem percebe, vai junto com a conversa jogada fora.

O chef Tarantino sabe como poucos cozinhar referências, e eu poderia passar o resto do dia falando nelas, mas parece que faltou algo mais importante dessa vez. Imagina-se que o centro da história seja a escravidão e o racismo, mas percebe-se que não. É uma história de amor? Não, também não. O tema central é a vingança? Hm, acho que não. Sobre o que é Django Livre? A única certeza é que tem sangue e tiros.

O problema de Django Livre não é a violência, a história ou os personagens. O problema parece ser o próprio Tarantino, que atingiu um patamar superior, daqueles que não surge ninguém com coragem para apontar suas idéias idiotas e dizer a ele para repensar algumas merdas.

Exemplo: Tarantino é um péssimo ator, mas adora se meter em seus filmes. Se fizesse como Hitchcock, que se colocava nos detalhes, seria mais engraçado e menos dolorido, mas não, ele precisa aparecer. O caubói australiano uatafóqui que não acrescenta absolutamente nada é, talvez, o pior papel dele como ator ever. Se ele tivesse ficado apenas no papel do mascarado que reclama sobre as máscaras malfeitas na cena da perseguição da KKK ninguém teria se incomodado.

Isso é apenas um exemplo. Ele continua um mestre nos detalhes de roteiro, a gente sabe disso. Mas pouco emerge de Django Livre, que navega pelo óbvio. A história tem um negro no papel principal e os brancos são os vilões, certo? Espirrar sangue em tudo o que é branco que passa pela tela não é exatamente genial. Há sangue em tufos de algodão, roupas brancas, cavalos brancos, na neve, paredes brancas, e assim por diante. Até no poster de Django Livre.

Ainda assim Django Livre (Django Unchained) é um filme divertido e você deve ir ao cinema para assistí-lo na tela grande. Mas não passa disso.

Como Tarantino é um mestre nas referências, deixa eu brincar também com uma que ele usou em Pulp Fiction – Tempo de Violência:

“O caminho do homem justo é rodeado por todos os lados pelas injustiças dos egoístas e pela tirania dos homens maus. Abençoado é aquele que, em nome da caridade e da boa-vontade pastoreia os fracos pelo vale da escuridão, pois ele é verdadeiramente o protetor de seu irmão e aquele que encontra as crianças perdidas. E Eu atacarei, com grande vingança e raiva furiosa aqueles que tentam envenenar e destruir meus irmãos. E você saberá: chamo-me o Senhor quando minha vingança cair sobre você”.

Acho que Tarantino usou essa passagem como base do roteiro de Django Livre, só acho. A tirania dos homens maus seria a escravidão, de repente surge o Dr. Schultz para salvar Django como uma criança perdida e depois eles vão “se vingar” dos escravagistas. Será?

O Django original, de 1966:

Django Livre 1966 franco nero poster omedi

Poster de Django (1966), com Franco Nero

E lá fui eu, um ávido arqueólogo de referências, baixar e assistir o Django original, de 1966, com Franco Nero no papel principal. Me lembro ter assistido ao filme quando era moleque, na época em que a Rede Record ainda passava, todas as quartas-feiras, o bom e velho Bang Bang à Italiana, mas não me lembrava de bulhufas da história, só me lembrava que ele carregava um caixão.

Não que o Django de 1966 tenha muita coisa a ver com o Django Livre de 2012, além do nome e da participação de Franco Nero, só que depois de ter revisto fiquei com a impressão que o personagem Django original é muito, mas muito mais interessante que o Django negão.

Mas eu sou chato.

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2 opiniões sobre “Django Livre (Django Unchained) | Um novo ponto de vista”

  1. É um ótimo filme, mas não é o melhor do Tarantino. Só acho que Tarantino deu uma escorregada feia (ridícula, até) nas duas únicas oportunidades que Django tem de escolher as próprias roupas que vai vestir, onde ele acaba escolhendo roupas espalhafatosas, como se fosse um cafetão dos anos 70. Se a intenção era fazer uma piada, foi muito da sem-graça.

    1. óbvio que foi piada, tanto que perguntam surpreso pra ele “O quê, foi você que escolheu essa roupa?”

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